“O que for pra ser seu vem na sua mão”

Uma das grandes curiosidades sobre garotas de programa, pelo menos o que sempre me perguntam, é sobre a opinião da nossa família a respeito desse trabalho.
No meu caso todo mundo sabe, mas quero falar sobre uma das pessoas mais importantes pra mim: minha avó. Também conhecida como dona Lourdes ou Mãe Lourdes.

Existem três datas no ano muito difíceis pra mim, o dia em que meu gato morreu; o dia que minha avó morreu e o meu aniversário. Amanhã faz três anos que ela partiu e por isso que senti vontade de escrever esse texto.

O que eu sei sobre ela é só uma gota de um oceano de aventuras que ela viveu em 70 anos.
Sagitariana dramática como diz meu tio, a Dona Lourdes fugiu de casa, e de uma família numerosa do Rio Grande do Sul aos 15 anos, para trabalhar como garçonete em São Paulo no restaurante de um amigo da cidade.

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Já morei no RS e fugiria também no lugar dela, sem querer ofender.
Assim como eu, minha avó amava São Paulo e o centro.  Ela me contava histórias sobre a antiga rodoviária Julio Prestes, onde ela trabalhou, e que amava dançar a noite no castelinho, ironicamente é onde eu trabalho às vezes, e em outras boates.
Nesse ponto rola uma parada estilo Capitu, a gente não sabe se era só dançar ou se ela fazia outra coisa, não importa mas vocês já vão entender porque essa informação é relevante.

Sei que um dos maiores arrependimentos da vida dela foi ter vendido seu apartamento na Avenida São João para comprar uma casa na Praça da Arvore.
Então a história se perde. Nós éramos e não éramos próximas porque ela e a minha mãe não se davam bem, existem coisas que eu sei por que ela mesma disse, outras que são fofocas de parentes, outras que descobri fuçando documentos depois que ela partiu.
A Dona Lourdes conseguiu a proeza de ser um mistério em vida e em morte, para a família inteira e pessoas de fora.
Esqueci de mencionar que a minha avó era mãe de santo, e das boas.

Quem me conhece sabe que não tenho aquela hipocrisia familiar de colocar meus parentes acima do bem e do mal, como seres soberanos, perfeitos e livres de falha.
Com a minha avó não poderia ser diferente, amo e a respeito bastante só que além de uma grande mulher ela também era um pouco egoísta, racista e um tanto quanto machista, mas aberta a novos conhecimentos então os dois últimos eu estava conseguindo mudar.
A parte machista foi o que nos afastou um mês antes dela morrer, nós brigamos sobre uma questão muito sensível, então infantilmente coloquei minha avó de castigo e parei de falar com ela.

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Era uma birra temporária já que ela tinha consulta marcada para o dia 30 de julho e quem levava era eu.  11 de julho me avisaram que ela estava no hospital com câncer e sem possibilidade de melhorar, comecei a surtar internamente de leve, mas não conseguia acreditar. A velha literalmente driblou a morte várias vezes.

Dia 13 fui visitá-la, nós conversamos sobre meu emprego novo, como sempre ela disse que já sabia dele. Praticamente qualquer coisa que eu fosse contar para a minha avó ela dizia isso.  Dona Lourdes era uma mulher vaidosa, essa foi a primeira e única vez na vida que vi minha vó sem estar com as unhas pintadas, então prometi que voltaria no dia seguinte com esmalte. Abracei-a com cuidado, a gente disse que se amava muito, e fui embora encher a cara de tristeza na casa do vizinho. Quando cheguei ao hospital no dia seguinte ela havia falecido há 10 minutos. Dormindo, num sopro, como sempre disse que seria.

É doloroso lembrar esse dia, porém não sinto culpa do meu egoísmo na época.
Nós éramos tão parecidas que ela entendia meu jeito e a minha necessidade de me isolar.

Lembro perfeitamente do dia que conversamos sobre meu trabalho, minha mãe contou pra ela e para meu avô como uma forma de me intimidar para parar. Obviamente o tiro saiu pela culatra. Dona Lourdes não era de fazer rodeios, mas também não veio com pedras na mão, não perguntou o porquê e nem tentou me convencer a parar.
Começou perguntando se era verdade, depois onde eu arrumava cliente, quantas vezes eu ia, como eram os clientes e etc.
A preocupação dela (e o que ela me pediu para nunca fazer) era o paredão na rua, coisa da época que ela dançava no castelinho, pois perdeu amigas que eram garotas de programa e trabalhavam assim. Claro que não ficou feliz, porém respeitou a minha escolha e ficou mais tranqüila conforme expliquei que tomava bastante cuidado.

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Se existe uma pessoa na minha vida que sempre torceu por mim, e deu apoio em quaisquer coisas que eu decidisse fazer, essa pessoa era a minha avó.
Inventei de fazer bombons para vender na escola, então ela deu a grana para comprar o chocolate e as formas. Quando quis aprender a bordar minha avó deu linhas, agulhas, panos quadriculados e revistas. Fez a mesma coisa quando aprendi encadernação, inclusive comprou um bloco de notas feio pra caralho feito por mim. Larguei a biblioteconomia pelo teatro, achei que agora sim levaria bronca, apresentei a peça o Boca de Ouro e ela estava lá me aplaudindo de pé.
Tudo sem criticar minha constante mudança de interesses, afinal ela também era assim.
Minha avó teve restaurante, salão de cabeleireiro, oficina de costura e outras coisas que nem sei.    Não foi diferente sobre eu ter virado garota de programa, ela mostrou seu apoio cuidando de mim espiritualmente, sempre tinha pronto um banho de ervas para descarregar ou proteger, assim como rituais para beleza quando dizia que não estava trabalhando bem. Era uma mãe de santo tão porreta que viu no jogo de búzios que eu iria conhecer um homem muito bom que me ajudaria bastante, e realmente aconteceu, mas isso é outra história.  
“O que for pra ser seu vem na sua mão” ela dizia quando eu estava preocupada com dinheiro ou com meu futuro. 
Minha mãe morria de ciúmes da nossa relação. Eu tinha uma conexão e um entendimento da minha avó que ninguém mais teve e que provavelmente não vou ter com mais ninguém, e é isso que mais me dói.
Quem é meio doida tem sempre que lidar com as pessoas perguntando razões e motivos sobre todas as suas atitudes, e alem do amor e da amizade que a gente tinha, o que mais sinto falta é nunca justificar nada para a dona Lourdes porque ela via através de mim.

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